Como podemos estimular o desenvolvimento social e emocional do bebê? No inicio ele apenas se movimenta, ainda de maneira descoordenada, e sente através do tato os estímulos do mundo.

“Nós sabemos relativamente pouco sobre como o cérebro infantil responde ao toque”, disse Peter J. Marshall, presidente do departamento de psicologia da Temple University.”Mas o toque é o primeiro sistema sensorial a se desenvolver no cérebro do bebê no período pré-natal” e está bastante desenvolvido quando o bebê nasce”. Andrew. Meltzoff, é co-diretor do Instituto de Aprendizagem e Ciências do Cérebro da Universidade de Washington.

Estamos acostumados a pensar sobre a importância do que até mesmo bebês muito jovens vêem e ouvem. Mas. Dr. Meltzoff foi o primeiro autor de um estudo publicado no final de junho na revista Developmental Science. Ele analisou como os cérebros dos bebês de 60 dias responderam quando diferentes partes do corpo foram gentilmente tocadas.

Os pesquisadores colocaram tampas elásticas contendo eletrodos de EEG nos bebês. E esses sensores, que são indolores para os bebês, registram a atividade cerebral.

“Havia uma assinatura neural, uma distribuição espacial da atividade elétrica no EEG que nos ajudou a mostrar que parte do cérebro estava ativa”, disse o Dr. Meltzoff. Quando a mão ou o pé esquerdo foi tocado, eles viram a atividade no lado direito do cérebro, como esperavam. Em uma área mais próxima do centro do cérebro quando na região do pé, e mais para o lado do cérebro para a mão. Quando o lábio superior foi tocado, a atividade foi bilateral.

Áreas diferentes do cérebro amadurecem em taxas e tempos diferentes.

“Esse toque não apenas produz uma resposta robusta e mensurável no cérebro, mas essa resposta é extremamente organizada”, disse o Dr. Joni Saby, outro autor.

“A resposta mais forte é para os lábios, o que é interessante porque bebês dessa idade passam a maior parte do tempo comendo, sugando.”

Dr. Meltzoff disse que em um fenômeno chamado “ampliação cortical”, os lábios podem estar “super-representados, há mais tecido neural dedicado aos lábios do bebê do que às mãos e pés”. A ampliação cortical pode refletir a alimentação que os bebês fazem.  Mas “é perfeitamente possível que, por razões evolutivas, os bebês humanos tenham uma representação labial muito proeminente. Porque os lábios são usados ​​não apenas para sobrevivência, mas também para expressões emocionais e linguagem”.

E as mãos serão usadas para explorar o mundo. Esses bebês ainda são jovens demais para alcançar e agarrar intencionalmente, mas a mão já está bem representada no cérebro. Será um precursor do comportamento que logo se desenvolverá.

Em outro estudo publicado em 2018, bebês de 7 meses assistiram um filme da mão de outra pessoa sendo tocada. E as áreas de suas mãos em seus cérebros se tornaram ativas.

“Bebês a partir dos 7 meses conseguem se conectar entre si e o outro”, disse Meltzoff. “A mão deles é como a minha mão, os lábios são como os meus lábios; Eu sou como você, você é como Eu”. Esse processo em que o bebê olha para o corpo de outra pessoa e o vê é chamado “como eu”. Poderia ser uma base importante para o desenvolvimento social e cognitivo.

Antes que os humanos tenham linguagem, eles têm a linguagem do toque, eles se comunicam através da linguagem do toque”, disse Meltzoff.

“Há algo como fome de toque em bebês jovens”, disse ele. E do toque vem uma importante estimulação do desenvolvimento, incluindo uma sensação do próprio corpo do bebê.

Por isso, o carinho, o contato e o toque pode indicar a compreensão sobre seu corpo e sobre si. E inicialmente são esses estímulos que o bebê reconhece e o auxilia na relação com o outro.

A Dra. Saby, que é pós-doutoranda em radiologia no Hospital Infantil da Filadélfia há 10 anos. Mas agora com uma criança de 5 meses, “finalmente estou estudando vendo tudo através dos olhos dos pais”. Ela está alimentando seu bebê, “pensando em cada vez que eu toco sua mão, há atividade enviada para a parte do cérebro dela que representa a mão dela”, disse ela.

“Estimulação constante indo para o cérebro ajudando a desenvolver essa área. Ajudando seus cérebros a se conectarem com seus corpos e, eventualmente, eles poderão usar essas partes do corpo para outras coisas.  Não apenas coisas motoras, mas ajudando a entender o corpo de outras pessoas.

Antes da linguagem, muita interação social e emocional vem através do toque”, disse Meltzoff.

Entender essa representação do corpo ajuda a explicar as bases para o desenvolvimento emocional e social.

“Se você me pedir para especular, eu diria que o bebê tem um senso do Eu muito primitivo nos primeiros meses de vida. Pode ser principalmente um senso de si mesmo, tátil e cinestésico ”. Isto é, um senso relacionado ao toque e ao movimento do corpo.

Para os bebês jovens, Dr. Meltzoff acrescentou, “o toque diz a eles sobre si mesmos quando estão sozinhos no berço, tocando o rosto, apertando as mãos”. Quando eles estão chutando ou abrindo e fechando as mãos, as regiões cerebrais associadas estão ativas. Você pode pensar nisso como uma espécie de “balbucio corporal”.

“Este sou eu, posso tocar meus lábios”, disse ele.” É uma exploração corporal pré-verbal”. Então, os próximos passos seriam mapear as partes do corpo de forma mais completa no cérebro do bebê. E depois observar atentamente como os padrões de comportamento afetam o cérebro à medida que o bebê se desenvolve.

A representação neural dos pés muda e se expande quando o bebê começa a andar? À medida que começam a usar mais as mãos para alcançar e agarrar mais deliberadamente, a representação da mão aumenta e se torna mais detalhada?

“Um bebê tem uma representação de seu próprio corpo e usa essa representação para processar informações sobre os corpos de outras pessoas – isso é uma declaração teórica”, disse o Dr. Meltzoff. “Se isso é verdade, se a representação neural do bebê é usada para mapear o eu e o outro, ela lança a grande conquista da comunicação social.”

Isso pode ajudar a responder à pergunta: por que os bebês, desde o nascimento, concentram sua atenção nas pessoas? Que objetos eles vêem?”

Acreditamos que esta pesquisa mostra que eles têm um senso físico próprio”, disse Meltzoff. E isso, por sua vez, levanta questões intrigantes sobre as origens da autoconsciência e o desenvolvimento de conexões entre o eu e os outros que nos tornam as criaturas sociais que somos.

Observar o comportamento do bebê e como o cérebro e o comportamento estão interconectados na neurociência infantil pode, assim, nos aproximar de questões filosóficas essenciais sobre o que nos torna quem e o que somos.

A amamentação, o banho, o trocar as fraldas e as roupas, são excelentes momentos para estimular o toque. E também um momento para conversar, interagir e se relacionar com o bebê, fortalecendo ainda mais o sentido de relação emocional e social.

Incentivar e ativar as áreas no cérebro responsável pela áreas social emocional,  é promover as maiores habilidades humanas para o futuro.

Texto: What Babies Know About Their Bodies and Themselves. The New York Times

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